Amigos Imaginários part. 2

[continuação]
Os parceiros inventados cumprem função semelhante quando servem de conselheiros morais. Quando estão na pré-escola, as crianças ainda precisam de um interlocutor externo para se certificar de que estão agindo de forma correta. Nesse caso, um amigo imaginário pode ocupar essa brecha. Geralmente, eles surgem em períodos em que seus criadores realizam grandes saltos de desenvolvimento cognitivo e oferecem às crianças a possibilidade de expressar sentimentos e impulsos.

Geralmente amigos imaginários tomam forma a partir do terceiro ano de vida, quando já é possível diferenciar entre o eu e o outro. Em 1988, o psicólogo Paul Harris, da Escola de Medicina de Harvard em Boston, acompanhou 221 crianças com o objetivo de detectar quão bem podiam separar a fantasia da realidade. Por volta dos 3 anos não havia mais confusões entre pessoas reais e inventadas, fossem seres imaginados por elas mesmas ou figuras de contos de fadas, histórias ou filmes.

A fantasia e a criatividade se modificam no decorrer do desenvolvimento. Crianças em idade pré-escolar frequentemente mostram aptidão para o chamado jogo ilusório ou ficcional, no qual partindo de poucos traços um objeto ou um personagem são construídos. Assim, uma fileira de cadeiras se transforma, por exemplo, em um “trem” num piscar de olhos. Na idade escolar a criatividade aumenta e, na adolescência, alguns jovens começam a escrever diários, uma forma muito particular de vivenciar a própria criatividade e imaginação. Para atingir esse estágio é necessário primeiramente uma compreensão madura da intimidade: crianças ainda não diferenciam entre informações “privadas” e “públicas”. Somente por volta dos 10 anos é possível compreender o que significa privacidade. Dessa fase em diante as informações sobre a própria pessoa ou sobre outros podem ser conscientemente mantidas em segredo ou manipuladas. Cerca de 40% das meninas confiam seus pensamentos pessoais a um diário (no caso dos meninos da mesma idade, esse índice é claramente mais baixo).

Com o aumento da idade, altera-se não apenas a percepção de si mesmo e das importantes pessoas de referência, mas também dos companheiros imaginários. Crianças de 4 a 6 anos, por exemplo, caracterizam muitas vezes a si mesmas e a outros por meio de atividades ou traços externos: “sou loiro”, “brinco com carrinhos”. Somente na adolescência usam aspectos da personalidade para se descreverem: “sou tímida” ou “sou generosa”. Esse conhecimento sobre a própria pessoa surge somente por meio das relações com outros, que se tornam cada vez mais significativas com o passar dos anos.
Não apenas as amizades reais, mas os companheiros imaginários também se modificam com o tempo, como demonstrou uma avaliação de vários estudos de longo prazo realizada por mim em 2008. No período pré-escolar são características as relações embasadas em uma interação física momentânea: “Somos amigas porque nós duas gostamos de brincar de boneca!”. Por volta dos 7 ou 8 anos os parceiros recebem e oferecerem ajuda – nessa fase a amizade orienta-se principalmente por vantagens próprias. Mas as crianças já atentam para um relativo equilíbrio de poder: “Eu te empresto minha bicicleta se você me deixar brincar com a sua bola”. Esses relacionamentos são mantidos também com os amigos imaginários.

No início da adolescência, por volta dos 12 anos, a troca emocional com o amigo ou amiga torna-se importante, os companheiros conversam essencialmente sobre problemas. A quebra da confiança é, nesse estágio, o motivo mais frequente para o término da amizade: jovens esperam que um bom companheiro lhes faça confidências e que saiba ouvir e guardar segredos. As meninas valorizam a confiança mútua nas amizades mais do que os meninos e tendem a contar suas experiências íntimas umas às outras.

Essas modificações resultam em uma exclusividade crescente das relações: enquanto crianças mais novas ainda brincam com qualquer um, sem selecionar, o círculo de amizades torna-se posteriormente cada vez mais restrito a poucos com visões de mundo semelhantes e com estes é possível estabelecer trocas mais afetivas. O aumento da necessidade de adolescentes de uma “alma irmã” explica por que nessa faixa etária quase sempre jovens solitários criam companheiros imaginários: para se consolar e não se sentir tão sozinhos.

Em minhas análises de entrevistas com centenas de adolescentes ficou claro que os amigos imaginários frequentemente surgem nos diários dos jovens. Os autores têm longos diálogos com seus parceiros invisíveis: os chamam pelo nome, contam fatos vividos em detalhes (“obviamente, você não poderia saber…”, “esqueci de contar…”) e ao fim da conversa sempre se despedem deles. Em nossa amostra, isso ocorreu em um terço dos diários de meninos e em até 60% das meninas. Os jovens refletiam muito sobre o relacionamento com seus companheiros imaginários e depois anotavam as reflexões em forma perguntas ou comentários. Muitas vezes, eles também convidavam o interlocutor a assumir, criticar ou julgar seu próprio ponto de vista.
Nesses casos, tinham evidentemente uma ideia muito exata de seus amigos inventados. Curiosamente, os jovens de ambos os sexos escolhem amigas imaginárias com mais frequência – 75% dos meninos e 61% das meninas – e inventam uma pessoa que se assemelhe a eles em traços essenciais. Rapazes muitas vezes criam uma cópia feminina perfeita de si mesmos, que se assemelha a eles não apenas em idade e aparência, mas também em personalidade. As meninas, por sua vez, criam ocasionalmente parceiras que se diferenciam delas em características importantes.

Com o aumento da idade, traços centrais da personalidade do amigo se modificam – assim como os do próprio autor –, às vezes ele recebe até um novo nome. Aqui, um exemplo de Tina, de 18 anos: “Durante um tempo, eu a chamei de ‘Cordula’. Agora ainda escrevo para ela, só que não mais de forma tão personificada – quase sempre sem um nome, mas ainda me refiro a ela”.

No decorrer da adolescência, os parceiros invisíveis parecem se tornar menos nítidos, adolescentes mais velhos quase não os mencionam. Aliás, entrevistamos escritores de diário mais uma vez alguns anos mais tarde e contatamos que realmente pouquíssimos conseguiram lembrar-se de seus amigos imaginários! Se o acompanhante imaginário cumpriu sua função, ele aparentemente não só é deixado de lado, mas também esquecido – um sinal de que as crianças conseguiram dar mais um passo em seu desenvolvimento de forma criativa.

 Uma Menina Adorável

 

 Em uma análise de diários de adolescentes publicada em 2000, percebi que o amigo inventado quase sempre tem um nome, é de um sexo determinado e tem aparência bem definida e traços de personalidade específicos que a criança ou o jovem pode modificar no decorrer do tempo. Nos diários encontram-se algumas descrições muito detalhadas desses personagens virtuais. Segue um trecho das anotações pessoais de uma menina de 15 anos:

“Kathrin é uma menina adorável que se move de forma encantadora. Ela é muito bonita quando está feliz. Ela tem os olhos castanho-escuros mais inacreditáveis que já vi em minha vida, muito expressivos – às vezes, como estrelas, depois, como o mar Morto, tão profunda, quieta e triste. Mas isso é apenas o que uma amiga pode ver na aparência. Através de seus olhos eu consigo olhar exatamente dentro dela, mas mesmo assim sei muito pouco sobre sua verdadeira vida interior. Por exemplo, não sei como é realmente a sua relação com Deus – portanto, eu poderia me enganar. O que mais a Kathrin é? Inteligente, decidida, apaixonada, solícita, às vezes um pouco difícil de entender, às vezes ela realmente é como uma mãe para todos, mas ela é assim e sem isso ela não seria a Kathrin. Então, há épocas em que eu tenho impressão de que ela realmente faz tudo perfeito, e fico feliz quando acho um defeito. Além disso, ela é muito calada e precisa de muito tempo para confiar em alguém. Ela parece combinar muitas coisas com Deus, a quem ela aparentemente é muito ligada”.

Autor: Inge Seiffge-Krenke é psicóloga; dirige o Departamento de Psicologia do Desenvolvimento do Instituto Psicológico da Universidade de Mainz na Alemanha. 

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