Os dez mandamentos da conversa

Tenha o que dizer
Conversar sem matéria-prima pode ser um desastre. A boa conversa é a estruturada: é preciso ter algo a dizer. Um repertório de informações significativo pode ser obtido não só pela leitura, mas por outras fontes, como cinema, teatro, sites e revistas especializadas.

  • Para que uma conversa se mantenha, uma questão fundamental é o conhecimento de mundo do que será tratado. Quando tenho argumentos para pôr opiniões em xeque, eu me sinto mais seguro para entrar na roda das conversas, independentemente do contexto de produção delas – explica Carlos Andrade, da UnicSul.

Saiba ouvir
Saber ouvir é saber doar-se, diz Osório Antônio Cândido da Silva:

  • Escutar com sincera atenção é habilidade que, em razão do desuso, vem sendo perdida – lamenta o professor de oratória.

Em geral, as pessoas gostam de falar, não de ouvir. Ficam tão centradas no que dizer que nem dão bola a quem interage com elas. Para o consultor Reinaldo Polito, a observação é a melhor forma de manter um diálogo.

  • Se houver alguém com vontade de falar, fique na sua e só interfira para valorizar o que está sendo comentado e demonstrar que presta atenção – sugere.

Seja significativo
Sonde os assuntos que interessam ao interlocutor e os explore. Para Reinaldo Polito, a conversa fluirá melhor se centrarmos o diálogo num ponto em comum.

  • Manter um bom diálogo é sinônimo de não falar de si mesmo. As histórias pessoais devem ser contadas apenas como autogozação – aconselha.

Para Carlos Andrade, num “bom papo” o que é dito deve ser importante a quem dele participa, pela qualidade da informação, pelo valor de quem a fornece.

  • O diálogo só é propício quando os interlocutores propõem em suas falas questões pertinentes ao assunto de que se está tratando – afirma Andrade.

Esteja pronto para ter iniciativa
Se a roda de conversa ficar em silêncio, tome a iniciativa de falar, sugere Reinaldo Polito.

  • Não se apresse em contar histórias. Comece com perguntas sobre conquistas e viagens do outro, algo que tenha a função de fazer as pessoas se manifestarem.

Se faltar assunto, inspire-se no ambiente e no momento, indica o consultor empresarial Luís Sérgio Lico.

  • Se não há nada a falar ou fazer, observe a pessoa, o ambiente e a ocasião, e faça um comentário – afirma.

Colecione pequenas histórias
Ter à mente histórias curtas e atraentes pode tornar uma conversa mais interessante. O consultor Reinaldo Polito aconselha que todos guardem a própria “coleção de histórias”.

  • Procure contá-las para os mais íntimos. Se notar que têm impacto, passe a usá-las em outros ambientes. Mas veja se o contexto é apropriado e a narrativa, útil à discussão.

Não estique “temas curingas”
Muita gente acompanha futebol, é capaz de falar sobre o clima e deve ter ouvido a notícia que foi divulgada na TV com insistência. Pela alta probabilidade de formarem o senso comum, “assuntos curingas” são pretextos para iniciar e desenvolver conversas.
Cuidado, todavia, para não se alongar demais neles. Têm curto efeito, dão pouca margem à continuidade da conversa e podem estimular o preconceito sarrista, se a pessoa for fanática por algum time, religião ou partido.

Adapte o vocabulário ao ouvinte
Privilegie o vocabulário do grupo com que interage. Com colegas de trabalho, a linguagem corporativa; entre acadêmicos, algo mais conceitual; com familiares e amigos, cumplicidade. Não use uma variante de linguagem em vez de outra. E busque a variante do idioma adequada. Luís Sérgio Lico sugere atenção redobrada a certas ocorrências linguísticas: rotacismo (“probrema”), pleonasmo (“conviver junto”, “encarar de frente”), gerundismo (“vou estar passando o recado”), equívocos de pronúncia (“piula”, “enlarguecer”, “mulé”) e de concordância (“menas”).

Não atropele a conversa
Um diálogo se desenvolve melhor se nos detemos num tema por mais tempo, em vez de mudarmos de assunto a cada instante.

Busque pular de uma questão a outra só quando sentir que ela se esgotou e não há nada mais a ser dito.

Enquanto fala sobre uma questão, imagine temas oportunos para a sequência, para que o salto entre um e outro não pareça brusco demais.

Evite lançar um comentário sem saber aonde quer chegar com ele.

A hesitação pode interromper o raciocínio de ambos e criar silêncios que não queremos.

Não conte vantagem
A arrogância pode ter efeito destruidor num bate-papo. Para o consultor Luís Sérgio Lico, é preciso cuidado com respostas que ofendam ou indiquem superioridade.

  • Humildade é uma erva fina no tempero, seja da conversa amena até os mais requintados discursos – explica.

Agir com isenção e propriedade pode não garantir a defesa de um ponto de vista, mas inspira respeito, diz o consultor, e valoriza a própria imagem.

Discorde sem constranger
Não basta tratar temas com propriedade, deve-se adequar o tom ao tipo de ouvinte. Comentários axiomáticos, definitivos (“essa conversinha de médico é um saco”, “o brasileiro é corrupto”, “detesto quem fala desse jeito”), podem indicar preconceito ou criar referência grosseira para o resto do diálogo: as respostas do ouvinte assumem a rispidez de quem fala com ele.

É preciso cuidado para não fazer generalização desmedida ou impor comparações insustentáveis. Evite contradizer alguém de cara. Elogie um ponto menor da argumentação do outro antes de entrar de sola com uma discordância.

Extraído do site Língua Portuguesa

Anúncios