Jorge Amado: O amante da expressão popular

Nesta história tem gato escondido. Que mistérios Jorge Amado, o escritor coloquial por excelência, pode oferecer ao leitor interessado em linguagem? Deus dá nozes a quem não tem dentes. O ícone da literatura baiana talvez não se preocupasse com formalismos, embora dominasse a variante da elite culta. Meta a mão na cabaça quem quiser, não eu. Superioridade formal em relação a expressões da língua? Pregar sermão em outra freguesia. Por causa disso, o escritor brasileiro mais vendido no exterior (55 países, 49 idiomas) até o advento do conterrâneo Paulo Coelho foi vítima de certo desdém da crítica. Quando os urubus aparecem é sinal de carniça. Mas se manteve firme em seu projeto de literatura popular. Quem engorda o porco é o olho do dono.

As expressões destacadas no parágrafo anterior são de livros de Jor­ge Amado (1912-2001), cuja obra começou a ser re­lançada este ano pela Cia. das Letras. Em seu projeto de incorporação da linguagem popular, não dispensava as frases feitas, os provérbios, gírias, palavrões. Expressões regionais, sim, mas não estamos falando de um colecionador como Guimarães Rosa, ou de escritores “quase geógrafos” como José Lins do Rego. Jorge Amado queria que todo mundo lesse seus livros. Retratar a realidade baiana e do país, sim, mas sem obsessão pelas nuances ou raízes de cada termo. Sem prometer mundos e fundos.

O professor Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que há marcas literárias da opção militante do escritor pelo Partido Comunista.

  • E não há duvida de que o coloquialismo inscrito na fala dos personagens é uma delas. Amado queria “escrever para o povo”, seguindo exemplo de escritores que, mundo afora, abraçaram a utopia socialista.

Segundo Duarte, o baiano incorporou a postura modernista que celebrava a língua “errada” do povo.

  • Dessa forma, superou o aspeamento dos falares matutos dos regionalismos que antecedem os romances dos anos 30.

Era contador compulsivo de histórias, Jorge, o Amado de Itabuna e de Zélia Gattai, a parceira escritora falecida este 17 de maio, em Salvador. O escritor podia ter filiação comunista e arriscava-se por suas convicções políticas, mas não se deixou marcar pelo dogmatismo opaco nem perdia a citação religiosa. Por fora Senhor São Bento, por dentro pão bolorento.

  • Para Jorge Amado, se a literatura era a vida, as palavras também significavam vida, sem complicação. A proposta da narrativa poética de Jorge Amado era chegar ao povo da maneira mais simples e direta possível, com uma linguagem em que o povo pudesse ser identificado – diz a professora Edilene Dias Matos, da PUC de São Paulo.

O clima lírico era obtido pelo “romancista do amor” por meio da precisão poética

Campo de palavras
Em Guimarães Rosa, por exemplo, a vida estava no campo das palavras, compara a professora. Em Amado, o foco está na criação de uma espécie de sociedade utópica, sem preconceitos e hierarquias, inclusive as das palavras.

  • Por isso, ele traduz também uma linguagem do dia-a-dia. Muitos menosprezavam a obra de Jorge porque viam essa fala do povo como linguagem descuidada; para eles, o autor devia seguir a gramática tradicional – diz Edilene.

Segundo ela, que conheceu o escritor, Amado não deixava nem que “corrigissem” seus romances, em outras edições.

  • Porque sua proposta era burlar tudo que fosse represamento, burlar conscientemente essa gramática. Ele põe na boca dos seus personagens sua linguagem, suas particu­laridades lingüísticas e fonéticas, nos diferentes contextos que eles usavam – conclui Edilene.

Não há, nesse sentido, como não falar de baianidade. Assis Duarte fala de uma sintaxe “marcada por certa melodia típica da fala baiana e nordestina”. Uma linguagem fluida, imersa em clima lírico, como anotou Antonio Candido, para quem Amado é o maior romancista do amor: a força da carne e do sangue, diz Candido, arrasta os personagens de Jorge amado a um clima lírico.

Sua linguagem lírica teria, portanto, precisão poética. Ilana Goldstein, autora de O Brasil best-seller de Jorge Amado, chama a atenção para uma observação do escritor José Paulo Paes sobre Gabriela. É no momento em que se narra seu fluxo de consciência. Ficava sem jeito, vestida de seda, sapato doendo, em dura cadeira. Trata-se de redondilha menor. Versos em cinco sílabas muito usados por trovadores e em cordéis. Queria um fogão, um quintal de goiaba, mamão e pitanga, um quarto dos fundos, um homem tão bom.

Ao lado de Zélia Gattai, a parceria escritora que morreu em maio

Pesquisas
O diálogo com o cordel, com a narrativa inspirada em técnicas de folhetim, foi um dos temas que consumiu pesquisadores. Mas atenção: a literatura de Jorge Amado ainda é muito pouco estudada na academia, apesar de seu sucesso popular. Consultora da Cia. das Letras para a reedição das obras completas do baiano, Ilana assinalou em seu livro que encontrou poucas pesquisas sobre o escritor. Sete anos após sua morte (6 de agosto de 2001), porém, pode estar havendo uma redescoberta, diz Edilene Matos. Na Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Gildeci de Oliveira Leite coordena o Dicionário Cultural Amadiano. Na Federal da Bahia, estudam-se os termos do candomblé em sua obra. E assim por diante.

  • O aspecto mais importante desta questão identitária (baiana, do Recôncavo) da obra de Jorge Amado é colocar a “língua do povo” e palavras características de diversas realidades socioeconômicas e culturais, privilegiando os menos favorecidos – diz Gildeci de Oliveira Leite.

Leite vê a presença, em Amado, de um iorubá (língua da Nigéria e parte do Benin) baiano, um quibundo (Angola) baiano e um elenco de hábitos e costumes da baianidade.

  • Será que todos nós sabemos o que é “beber e comer o morto”? O que poderia ser um ritual literalmente antropofágico é na verdade o ritual da sentinela, com a boa cachacinha, café, bolos e biscoitos que em  cidades baianas do interior já ganharam o nome de ‘biscoito de defunto”.

Cruzamentos
Gildeci classifica Amado como “um antropólogo na ficção”.

  • Para um desconhecedor de aspectos da baianidade isso tudo poderia gerar um “rebucetê”, outra expressão amadiana, uma confusão, briga, algazarra.

Colega de Gildeci na Uneb, Tadeu Luciano Siqueira Andrade chegou a detalhar o léxico relativo a prostitutas e maridos traídos. Só de “cornos”, Amado inventou uma “confraria de São Cornélio”. Fala do “marido conformado”, dos equivalentes “boi manso” e “boi de carro”, segue na comparação com animais ao falar do “capão de terreiro” (galo capado), do homem “coberto de chifres”, de “ornamentar a cabeça” e “iluminar a testa”. As prostitutas ganham variações inúmeras: só em Gabriela há “putas”, “quengas”, “manceba”, “negrinha”, “prostitutas”, “sirigaitas” (interesseiras), “caboclinhas” (pobres), “filial”, “cabrochas” (novas).

Mas há variações de romance a romance. Em Tieta há bem mais “quenga” do que em Gabriela, por exemplo. Andrade tem como hipótese o fato de o romance se passar na fronteira com Sergipe, onde o termo seria mais usado. Para ele, ainda há poucos estudos sobre o léxico amadiano.

  • As classes sociais menos favorecidas constituíam a literatura amadiana, e isso pode ter sido determinante de um “esquecimento” da riqueza léxico-semântica de sua literatura – diz Andrade.

Andrade é colecionador das frases feitas que aparecem em itálico neste texto.

  • Pouco encontramos pesquisas acerca da linguagem amadiana, exceto quando se refere ao estilo solto e ao uso excessivo do vocabulário corrente.

O comunista Jorge Amado tentou a prosa engajada, mas só alcançou seu projeto ao fundar sua linguagem na expressão popular

Outras linguagens
Se a linguagem de Amado foi relativamente pouco estudada, suas características permitiram fácil transposição para outras linguagens (televisiva, teatral, cinematográfica etc.), diz Edilene Dias Matos.

  • Mesmo porque ele tem uma linguagem mais comum, plástica – afirma ela.

Por isso, o sucesso de telenovelas como Tieta e Gabriela. Influenciadas por técnicas folhetinescas, elas resultaram em obras de cordel, informa Ilana Goldstein. A capa do folheto de Manuel D’Almeida Filho sobre Gabriela trazia a estampa de Sônia Braga, numa versão que foi considerada por Amado mais bonita que a dele.

Se a obra de Amado e outros modernistas foi definida por Antonio Candido como uma proposta de “ir ao povo”, a necessidade de conquistá-lo prevê opções narrativas e de linguagem. Ao falar do erotismo característico desde Gabriela Cravo e Canela (1958), Edilene diz que a própria linguagem amadiana pode ser considerada algo erótico, tátil.

  • Esta linguagem, que se quer possuída (já que ele queria ser popular), chega muito próximo dessa tatibilidade. Portanto, é, em si, já erotizada. É mais que envolvente; é sedutora – diz a professora.

O sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974) dizia que o povo brasileiro encontrou com Jorge Amado sua expressão estética, e conquistou autonomia literária. Por certo tempo, o comunista Jorge Amado tentou fazer literatura engajada. Foi ao fundar sua linguagem no imaginário popular, no entanto, que alcançou o projeto. Sem outro engajamento que não o da expressão popular.

Amado e o professor de português
Jorge Amado conta em seu livro autobiográfico O Menino Grapiúna, de 1991, que foi um professor de português, o padre Luiz Gonzaga Cabral, o primeiro a dizer que ele seria escritor. Foi no Colégio Antônio Vieira, dos jesuítas, onde cursou o ensino médio sentindo-se encarcerado, com saudades da liberdade em Ilhéus. E eis que esse professor, que substituía um certo padre Faria, pediu uma descrição com o seguinte tema: o mar. Amado escreveu sobre o mar de Ilhéus.

“Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Pediu que escutassem com atenção o dever que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios. Eu acabara de completar onze anos.”

Amado considerava o padre um herege, mas “apenas no que se referia aos métodos de ensino da língua portuguesa, em uso naquela época”.

“Em lugar de nos fazer analisar Os Lusíadas, tentando descobrir o sujeito oculto e dividir as orações, reduzindo o poema a complicado texto para as questões gramaticais, fazendo-nos odiar Camões, o padre Cabral, para seu deleite e nosso encantamento, declamava para os alunos episódios da epopéia. Apesar do sotaque de além-mar, a força do verso nos tomava e possuía. Lia-nos igualmente a prosa de Garrett, a de Herculano, cenas de Frei Luiz de Souza, trechos de Lendas e Narrativas.

Patriota, desejava sem dúvida nos fazer conscientes da grandeza de Portugal, o Portugal das descobertas e dos clássicos.

Obtinha bem mais do que isso: despertava nossa sensibilidade, retirando-nos do poço da gramática portuguesa (cujas rígidas regras nada tinham a ver com a língua falada pelo povo brasileiro) para a sedução da literatura, das palavras vivas e atuantes. As aulas de português adquiriram outra dimensão.” (A.L.C.)

Em outras línguas
Mais de 21 milhões de exemplares da obra de Jorge Amado foram vendidas no Brasil de 1977 até sua morte, em 2001. Não há dados anteriores. A Fundação Casa de Jorge Amado registra traduções em 55 países e em 49 idiomas: alemão, albanês, árabe, armênio, azerbaidjano, búlgaro, catalão, chinês, coreano, croata, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, esperanto, estoniano, finlandês, francês, galego, georgiano, grego, guarani, hebraico, holandês, húngaro, iídiche, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, macedônio, moldávio, mongol, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tailandês, tcheco, turco, turcomano, ucraniano e vietnamita.

Há mais. A pesquisadora Ilana Goldstein conta que o autor se surpreendia, em viagens, ao ver obra sua em idiomas pouco prováveis, pois sem tradução oficial. São edições piratas. (A.L.C.)

Nomes de nomes
Gabriela era um nome comum no Brasil antes do romance de Jorge Amado? A professora Edilene Dias Matos, da PUC-SP, não tem dúvidas de que o nome se tornou muito mais popular após o livro – e, claro, a novela da Rede Globo. Seria pedir demais que Tieta, nome de uma prostituta, ganhasse igual popularidade, mas o efeito da literatura amadiana nas denominações de pessoas e lugares não se restringe às Gabrielas e Gabriellas.

Após a reforma do Pelourinho, nos anos 90, os turistas podem conhecer os Largos Quincas Berro D’Água, Pedro Archanjo e Tereza Batista. Em Ilhéus há o quarteirão Jorge Amado. E um caso curioso se passou na cidade de Picado, segundo Ilana Goldstein. Foi lá que o cineasta Cacá Diegues filmou seu Tieta. Por causa do frisson causado pelas filmagens, os moradores cogitaram mudar o nome de Picado para o da cidade (fictícia) onde se passa o livro, Santana do Agreste. (A.L.C.)

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