Filosofia e História

Por Marcia Tiburi
   
Todos querem saber sobre a história da Filosofia, tema de vasto interesse nestes dias em que, para o bem e para o mal, desenvolvendo a conversação e a democracia ou servindo de ilustração para quem confunde reflexão e crítica com adereço no mercado dos valores sociais, a Filosofia está na moda. Por outro lado, ela chega com força, do ensino fundamental e médio aos cursos universitários, como disciplina obrigatória. Sua potência é a da modificação das bases da educação pelo avanço da crítica e da compreensão em território sem especialização reflexiva. Filosofia e Educação devem conviver. Todavia, a possibilidade de uma calcificação da educação pela má Filosofia, que se pensa como “saber” constituído, “área” de pertença de eruditos inconscientes das relações sociais nas quais estão envolvidos, ou da filosofia pelo mau ensino, aquele que se perde na prática irrefletida, pode minar um projeto de formação para a democracia que é tanto a tarefa da Educação quanto da Filosofia nos dias de hoje.
   
Neste contexto, convém evitar confusões e é por isso que a distinção entre Filosofia e sua história merece uma atenção muito cuidadosa. A indistinção resulta do descuido – e convém perguntar se alguma sorte de interesse – por parte daqueles que, como professores de Filosofia, são os responsáveis por sua reintrodução no ensino brasileiro ou mesmo por sua divulgação. Ponderá-la é o primeiro passo filosófico na compreensão, e na promoção, de um novo estatuto, tanto para o que podemos chamar Filosofia, quanto para o que é hoje o seu ensino, baseado, muitas vezes, apenas na história pré-datada que, elevada pelos intelectuais envolvidos com ela (a Filosofia) a estatuto de verdade absoluta, extirpa-lhe a tarefa reflexiva e, portanto, seu núcleo essencial.
   
Que a Filosofia esteja dentro da história e a história do pensamento dentro da possibilidade da própria reflexão filosófica, é inegável. Essa é uma primeira concepção de Filosofia com a qual precisamos conviver. Que a Filosofia que conhecemos derive de textos tão bem conservados por sua força conceitual, que aquele que dela fale necessariamente a reconheça como uma tradição de pensamento que envolve justamente a capacidade da dúvida e da refutação da própria tradição, são fatos que não podemos desconhecer. A Filosofia é, nessa definição, a história do pensamento crítico ligada à vida de certos homens que a escreveram e à cultura à qual pertenceram. Só a Filosofia pode ser recepção crítica da tradição da própria Filosofia como viagem do pensamento humano no tempo. Nesse sentido, é claro que a história é essencial à concepção da Filosofia.
   
Recepção crítica, todavia, é atividade filosófica que pode ser eliminada se as instituições simplesmente o quiserem, fomentando apenas a pesquisa que, levando adiante a má historiografia, apenas repete e assina embaixo os grandes conceitos do passado. É isso que as pós-graduações exigem hoje de alunos em processo de pesquisa, tolhendo-lhes toda a criatividade e a possibilidade de inovação. Nivela-se por baixo pensando que se está a fazer o contrário. Além de tudo, toda relação interdisciplinar é totalmente controlada. Ninguém sustentará que é possível reinventar a roda em Filosofia, não se trata de postular tal absurdo. Mas a possível eliminação do pensamento crítico pelo pensamento como instituição é um risco que filósofos, se quiserem realmente enfrentar a potência de seu próprio elemento, devem evitar.
   
Pensamento crítico
Uma boa História da Filosofia seria o contrário da fossilização forçada dos conceitos que vemos hoje. Seria diálogo e constante crítica com o que foi pensado e estabelecido como tal, com vista ao estatuto do tempo presente no qual cada pensador está, querendo ou não, situado. Uma questão, todavia, se impõe. Por devoção pessoal, ou necessidade subjetiva, um professor de Filosofia pode ser um sujeito anacrônico, alguém despreocupado com a reflexão e a invenção de conceitos próprias à capacidade de pensar organizada como Filosofia. Ninguém está proibido de anacronismo. O anacronismo é, pode-se dizer, um direito. Mas há que justificá-lo quando se ensina Filosofia.
   
Dizer, portanto, da diferença entre Filosofia e História da Filosofia não é sinalizar um abismo entre o tempo passado e o tempo presente, ou um combate à tradição, nem, muito menos, dizer que a Filosofia deve ficar longe de sua própria história, ou separada dela como de algo nocivo. Seria fundamentalismo ou ignorância postular uma origem absoluta da Filosofia no tempo presente de qualquer consciência. Nem a Filosofia longe de sua história é, de antemão, garantia de Filosofia alguma. A própria questão da relação entre ambas precisa ser bem posicionada para evitar mal-entendidos na consciência de cada estudante e de cada pesquisador ou professor. A Filosofia, portanto, não precisa nem deve ser tratada, pura e simplesmente, como a História da Filosofia. Há que se ponderar sua tensão a cada vez que ela se coloca, seja na sala de aula, seja onde for.
   
A Filosofia, como nome próprio ou marca registrada, é o contrário do pensamento crítico em nome do qual algo como Filosofia como liberdade do pensamento pode existir. A ampliação do território do pensamento é o que está hoje em jogo. É essa liberdade que possibilita o diálogo, sua ação mais significativa em termos sociais. Assim como um dia Maurice Blanchot teve a feliz idéia de postular a inexistência d’A Literatura, afirmando que ela se cria e recria a cada vez que um escritor escreve um livro, é preciso defender hoje que a Filosofia é criada e recriada a cada vez que alguém se dá ao trabalho de elaborar, de modo organizado e com espírito sistemático, as concepções, as teorias, as interpretações que aparecem no rumo de sua pesquisa. Isso também define que Filosofia não é uma mera conversa, um mero debate em torno de idéias que fazem parte do jargão conceitual vigente, mas uma busca consistente em torno de uma possibilidade, a de que exista a verdade. Só há sentido em buscá-la à medida que se deixa claro o lugar de onde cada um que pensa é capaz de expressar-se. A Filosofia, nesse sentido, é uma experiência compartilhável que começa com o fato inexorável do pensamento de cada um num contexto de trocas discursivas em que todos estão implicados, independentemente do seu grau de informação ou formação.
Extraído: Revista Cult
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