O escritor com nome de dicionário

Sob a capa do advogado que se tornou um dos maiores lexicógrafos brasileiros de todos os tempos, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira cultuava uma indisfarçável ambição ficcional. O início das pesquisas que levariam à produção de seu dicionário, 1941, coincide com sua estréia literária, com o livro de contos Dois Mundos, um ano depois. Foi crítico e tradutor de renome.

Entre 1947 e 1960, publica a coluna O Conto da Semana no suplemento literário do carioca Diário de Notícias. Em parceria com o húngaro Paulo Rónai, em 1945 começa a traduzir contos clássicos para formar uma antologia da narrativa curta universal, que resultou nos dez volumes da coletânea Mar de Histórias.

É, portanto, um homem de literatura o Aurélio Buarque de Holanda que lança em 1975 o dicionário cuja fama lexicográfica terminaria por ofuscar a sua ficção. Agora, quase vinte anos depois da morte do autor, essa dimensão pode ser mais uma vez avaliada com o relançamento de seus contos completos, pela Global. Com seleção de Luciano Rosa, Melhores Contos faz jus a uma figura que ajudou a vincular a paixão pelo idioma à identidade brasileira.

É um escritor de seu tempo, marcado pelo modernismo regionalista. Aurélio radiografa a vida e os tipos do Nordeste dos anos 30, mas não só. Imprime leveza, certa graça e até algum grotesco em episódios que vão da crônica rural ao realismo urbano, este ambientado no Rio de Janeiro da primeira metade do século. Em Feira de Cabeças, por exemplo, Aurélio imagina o impacto da caravana que levou as cabeças do bando de Lampião de cidade em cidade. Filho e Pai mostra a impunidade do coronelismo, enquanto A Primeira Confissão é um relato gaiato de um garoto curioso que contesta o dízimo (“pra que que a alma quer dinheiro?”), para irritação de sua professora.

Em Maria Araquã, Aurélio descreve uma escrava que teria marcado a infância do narrador. Embora títulos como O Chapéu de Meu Pai sejam explicitamente biográficos, nem sempre é evidente a distinção entre efeito de real e memória nos contos de Aurélio; saber até que ponto se está diante de reminiscências legítimas ou da invenção de um narrador que, na verdade, é mais um personagem a descrever lembranças de ficção.

Caminhos lexicográficos

A paixão literária levaria Aurélio ao universo dos dicionários. Ele chegou ao Rio em 1938, com 28 anos. Virou professor do Colégio Pedro II e, um ano depois, secretário da Revista do Brasil, além de revisor requisitado pelos amigos escritores. Em pouco tempo, 1941, virou colaborador do Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa, início do trabalho com lexicografia. O seu próprio dicionário levou cinco anos para ser produzido e contou com o esforço de 160 profissionais para a primeira edição, de 1975.

Na contracorrente de seu tempo, o dicionário de Aurélio incorporava termos coloquiais, regionalismos e estrangeirismos então considerados marginais pelos dicionários (como “cambalacho”), combinava definições objetivas a equivalentes léxicos precisos, num volume prático e único (o Aulete, que reinava então, vinha em cinco tomos). Um dicionário funcional, pensado para o uso, mas sem perda de qualidade. Foi um sucesso arrebatador. Passados trinta e três anos de seu lançamento, o dicionário vendeu mais de 50 milhões de exemplares.

Olhos cintilantes

Quando o entrevistou em dezembro de 1988 para o hoje extinto Jornal de Alagoas o jornalista Mário Lima, impressionou-se com o vigor do dicionarista de 78 anos, mesmo abalado pelo mal de Parkinson. No encontro ocorrido três meses antes da morte de Aurélio, Lima o vê com ar altivo, olhos azuis cintilantes, bem abertos e ar perdido, cabelos encrespados, a voz grave e pausada, gestos lentos, porém expressivos. Sua mão, trêmula, contrastava com a firmeza de suas respostas.

– A concepção de um dicionário exige calma e muita pachorra (do Aurélio: “vagar”, “lentidão”). É como uma paixão, uma cachaça da boa, uma obra interminável, que tem de ser feita coletivamente, e nunca sai perfeita como a gente quer. Sou o maior leitor de meu próprio dicionário – disse mestre Aurélio ao repórter.

O processo de criação de verbetes era quase artesanal.

– Em uma primeira etapa tiro de outros dicionários o que pode ser útil e vital. Depois faço anotações. Vivo anotando. Principalmente notícias de jornais, revistas e televisão, e da gíria cotidiana do povo. A convivência direta com o povo é fundamental para o processo de criação dos verbetes – assinalou o dicionarista em sua última entrevista.

Lima lembra que o entrevistado gesticulava para o alto, já com cabelos desalinhados, à Einstein, quando recitou um verso de Drummond para expressar seu amor pelas palavras: “Lutar com palavras é a luta mais vã / Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

Aurélio renegou, no entanto, a fama de ser considerado um sinônimo de dicionário, prurido que o fez recusar-se a registrar “Aurélio” como dicionário.

– Da minha parte acho muito pedantismo aceitar essa comparação, pois existem outros grandes dicionaristas, como o Caldas Aulete.

Dias depois da entrevista, Aurélio sofreu uma forte crise de pneumonia que o obrigou a voltar às pressas para o Rio. Na época, seu amigo Emer de Mello Vasconcelos informava que Aurélio se recuperava lentamente na Clínica Bambina, no Rio. Mas no começo de 1989 o mestre não resistiu.

Após a morte de Aurélio, em fevereiro daquele ano, o legado da obra passou a ser gerido pela viúva, Marina Baird Ferreira, entrevistada desta edição. Ela conta que o Novo Dicionário da Língua Portuguesa logo ganhou o nome do dicionarista pelo seu renome no meio acadêmico.

– Este dicionário surgiu da decisão pessoal de Aurélio de fazer um dicionário seu, que ficasse como o coroamento de sua obra de lexicógrafo. O primeiro dicionário deveria ser seguido por um maior que, infelizmente, não se concretizou por motivos de saúde – diz dona Marina.

Ela trabalhou regularmente como assistente do marido desde que se casaram, em 1945. Em 1965 passou a ser lexicógrafa, junto ao projeto do 3 Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Hoje, aos 86 anos, coordena a revisão e a análise dos verbetes em parceria com a professora Margarida dos Anjos, que foi assistente de Aurélio desde 1965. A dupla conta com a ajuda permanente de uma equipe de dez pesquisadores, que atualmente trabalha na quarta edição do dicionário.

Aurélio entre seus estudos: “A concepção de um dicionário exige calma e muita pachorra”

– Após o término de uma edição, damos imediatamente início à revisão e à coleta de material visando a uma nova edição: a língua não é estática – diz ela.

Dois profissionais com formação em língua portuguesa trabalham em paralelo na cidade de Curitiba, propondo inclusões e revisões que são aprovadas pelo grupo de Dona Marina no Rio de Janeiro. O padrão de excelência da pesquisa e o rigor na rea­lização da obra, em todas as suas etapas, ocorrem agora via internet, com reuniões periódicas entre equipes.

Família Aurélio

Em dezembro de 2003, o grupo Positivo adquiriu os direitos sobre os produtos Aurélio impressos, suas versões eletrônica e on-line, na que é considerada uma das maiores transações editoriais do mercado brasileiro, embora o valor do negócio não seja revelado. O contrato é valido até 2010, renovável por mais sete anos.

Quando a marca Aurélio chegou ao grupo Positivo, havia dois títulos da família de dicionários. Hoje são 13, informa Giem Guimarães, diretor-geral da Posigraf e diretor comercial da Editora Positivo. Em quatro anos, todos os produtos da grife Aurélio venderam 10 milhões de unidades, calcula Guimarães. Os carros-chefes da família são o Novo Dicionário Aurélio, o Aurelião, na nova editora desde fevereiro de 2004, e o MiniAurélio. Desde setembro do mesmo ano na Positivo, a versão míni vendeu 500 mil exemplares todo ano.

Legado

– O sucesso dos Aurélio se deve a uma obra identificada como útil, que não está cheia de neologismos, termos arcaicos, dados etimológicos ou verbetes de outros países de língua portuguesa. É útil do começo ao fim. Quando o concebeu, Aurélio se preocupou com a utilização no cotidiano e não com o caráter enciclopédico medido pelo número de páginas. Por isso ele é o Aurélio – diz Guimarães.

A natureza do trabalho, técnico e minucioso, exige cuidado, pois detalhes podem passar desapercebidos pelo consumidor, mas ajudam a fazer um dicionário de ponta. A Positivo destaca a circularidade: a garantia de que todos os termos usados nos verbetes e locuções constem como entrada (verbete próprio).

Outro ritmo

A Positivo imprimiu ritmo ao legado. Ofereceu ao mercado mais de uma versão. Há o Aurélião, o MiniAurélio (uso escolar), o Dicionário Júnior (até 8ª série), o Mirim (da 1ª à 5ª séries) e o Infantil (o Aurelinho, para alfabetização). Além das versões impressas, o Aurélio e o Míni têm versões eletrônicas, em CD. A Positivo Informática ainda comercializa o Aurélio Mania, edição do Míni com dados complementares (como uma minienciclopédia), jogos educativos e outros recursos.

Só entre janeiro a setembro de 2007 saíram 940 mil computadores da Positivo Informática com o conteúdo eletrônico do Aurelião. As mesas educacionais Alfabeto (adquiridas pelas Secretarias de Educação) saem com o Aurelinho.

A terceira edição do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa tem nos cálculos da editora, 435 mil verbetes, definições e locuções. A quarta edição, com novos verbetes, virá até 2010, quando a Positivo se prepara para o centenário de nascimento do autor.

– Assim como o próprio Aurélio costumava falar: o Aurélio não tem a pretensão de ser aquele que contenha todas as palavras, mas o que tem todas aquelas de que a família brasileira necessita. Essa dosagem, esse equilíbrio é a identidade da obra. Talvez por isso, Aurélio é sinônimo de dicionário – diz Guimarães.

Obra completa

A importância do Aurélio para o grupo Positivo se dá também pela alta absorção do produto dicionário no ambiente escolar, um filão estratégico. Só em 2005, o Governo Federal, por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), abriu licitação para a compra de 4,6 milhões de dicionários, para escolas do fundamental. O Aurélio representou cerca de 900 mil (20%) do total.

A obra completa de Aurélio Buarque de Holanda, no entanto, é mais ampla e diversificada do que os estudos de lexicografia fariam supor. O lançamento de seus contos é só a amostra do seu legado fora das palavras em estado de dicionário. O denominador de seus escritos ficcionais, críticos e lexicográficos, no entanto, parece ser a tentativa de estender a noção de uma identidade brasileira a um país em mutação, num mundo em que as fronteiras geográficas e culturais começavam a ficar cada vez menos nítidas.

Esse é, talvez, o maior mérito das palavras de Aurélio.

Aurélio completo

  • Dois Mundos (contos, 1942);
  • Linguagem e Estilo de Machado de Assis (ensaios, 1939);
  • Linguagem e Estilo de Eça de Queirós, publicado no Livro do Centenário de Eça de Queirós (1945);
  • Mar de Histórias [antologia de contos da literatura universal, em colaboração com Paulo Rónai – volume I (1945), volume II (1951), volume III (1958), volume IV (1963) e volume V (1981)];
  • Contos Gauchescos e Lendas do Sul (edição comentada do texto de Simões Lopes Neto, acrescida de glossário de termos gaúchos, em 1949);
  • O Romance Brasileiro de 1752 a 1930 (1952);
  • Roteiro Literário do Brasil e de Portugal (antologia literária da língua portuguesa, em colaboração com Álvaro Lins, 1956);
  • Território Lírico (ensaios, 1958);
  • Enriqueça o Seu Vocabulário, Filologia (1958);
  • Vocabulário Ortográfico Brasileiro (1969);
  • O Chapéu de Meu Pai (edição revista e reduzida de Dois Mundos, 1974);
  • Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1975);
  • Minidicionário da Língua Portuguesa (1977);
  • Médio Dicionário da Língua Portuguesa (1980);
  • Dicionário Aurélio Infantil da Língua Portuguesa (1989).

Extraído: Revista Língua Portuguesa

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