Resenha Abril Despedaçado

Abril DespedaçadoA obra mostra como um livro na mão de uma criança, embora analfabeta, pode fazer toda diferença, pois mesmo não sendo letrado, Pacu usa de sua imaginação para criar estórias, usando como base apenas ás ilustrações. Paulo Freire faz uma análise no texto A Importância do ato de ler, sobre a leitura da “palavramundo”, onde de forma simples e descomplicada explica essa naturalidade com que uma criança faz sua leitura de mundo, usando para isso, as ilustrações do dia a dia.            
No filme Abril despedaçado, podemos enfim constatar a veracidade do fato. Na película o diretor Walter Salles deixa claro que “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Pacu usa seu livro como um cajado e mostra o caminho da mudança ao irmão, e até mesmo a sua mãe, que já estava conformada com a sina de sua família. A leitura de mundo de Pacu é profunda, sofrida e crítica. Nela o garoto desvenda toda a bestialidade envolvida numa tradição sem nexo e sem futuro para as duas famílias.           
   Muito mais do que desvendar as páginas do livro que não sai de seu lado, o garoto lê o próprio destino e o do irmão, e resolve através da fantasia fazer toda a diferença. Passa então a cobrar de seus pais de forma velada o direito de ser criança, de brincar, sonhar e ser feliz.           

   O filme por si só tem um tom amarelo-deserto, dando a idéia de algo gasto e fora do tempo. Tempo esse que parece abocanhar os personagens numa fome voraz e devastadora. De repente no meio de seres tristes e desbotados, eis que surge toda a claridade da artista circense Clara, que leva a luz ao menino sem nome. E de forma inconsciente o faz pensar, sonhar e desejar a própria felicidade. O objeto que modifica a vida de Pacu e de seu irmão Tonho é um livro de estórias, que narra ás aventuras e desventuras de dois peixinhos e uma sereia. 
   O filme nos hipnotiza usando o círculo como objeto desta manipulação, isto se dá por duas vezes. A primeira com a roda de bois, que gira constantemente, sem sair do lugar e movimenta uma engrenagem cheia de rodas menores. A segunda quando Clara se prende numa corda amarrada verticalmente, e pede para que Tonho a faça girar por um dia inteiro e cada vez mais forte, parecendo que a qualquer momento pode haver um possível rompimento. A casa de Tonho e Pacu é sombria, a terra da fazenda é árida e sem vida. O trabalho é feito como obrigação, e até as refeições da família é feita de forma mecânica, sem prazer, sem sabor.           
   Pacu sonha com a sereia, com o mar. Más este sonho não é seu, pois o menino instiga o irmão a vivenciar a fantasia que é dele próprio, ao mesmo tempo em que assume para si, o fim trágico que era do irmão. O único momento em que vemos os personagens sorrirem é quando Pacu e Tonho rolam no chão brincando como duas crianças que são. A magia deste momento é quebrada quando o patriarca começa a dar gargalhada, como se fosse um algoz a espera de sacrifício humano.           
   Clara é a primeira a se libertar do circulo vicioso que é sua vida, e provoca Tonho a fazer o mesmo. A rivalidade entre as famílias Breve e Ferreira está prestes a ter um fim. A chuva chega anunciando mudança, de repente um tiro ecoa no ar.            
   O pai já se conforma com o destino de Tonho, quando descobre que Pacu que foi morto, reclama a quebra da ‘tradição’, e clama por justiça. Más tonho ferido e revoltado com aquela situação já não ouve mais o velho pai. Tonho então parte em direção ao mar sem olhar para trás.           
   A obra mostra como é importante mostrarmos o mundo aos nossos pequenos, para que estes possam fazer por fim a leitura da “palavramundo”. Pois esta leitura de mundo, é que dá suporte á leitura da palavra escrita. Mostre aos seus filhos e alunos os animais, as árvores, os pássaros, as flores, as frutas em seus galhos e deixe que eles façam á leitura de mundo. Pois esse ser tão pequeno em tamanho tem a capacidade maravilhosa e diferente de ver as coisas e as pessoas.

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